sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Euribor. Queda histórica beneficia quem tem crédito e penaliza quem poupa

 
A redução histórica das taxas Euribor é uma boa notícia para as famílias com crédito à habitação, que pagarão menos, e má notícia para quem tem depósitos e para as expectativas quanto à inflação, segundo analistas ouvidos pela Lusa.

“Quem tem créditos ou financiamentos tem de despender menos. Agora, para quem tem depósitos, porque privilegia não ter risco, ou os fundos de pensões, que não se podem expor a certos activos mais arriscados, aí há a vertente negativa de praticamente não haver remuneração”, disse à Lusa João Queirós, do Banco Carregosa.

A taxa Euribor a seis meses, a mais utilizada em Portugal nos créditos à habitação, desceu hoje para 0%, um novo mínimo histórico, o que terá impacto na redução da prestação da casa.

Também as outras taxas estão em valores mínimos: a Euribor a três meses, em terreno negativo desde 21 de Abril, fixou-se em -0,069%, a taxa a nove meses caiu para 0,040% e a Euribor a 12 meses para 0,101%.

Para Pedro Ricardo Santos, gestor da corretora online XTB, a “evolução recente da taxa Euribor revela a pressão exercida por parte do Banco Central Europeu [BCE] na investida contra a deflação na zona euro”, pelo que no futuro próximo a tendência deverá manter-se, até tendo em conta o sinal dado pelo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi.

“A aguardada decisão de aumento dos estímulos por parte do regulador europeu poderá levar o indicador a valores negativos. Até que exista uma alteração à actual política monetária, os movimentos deverão ser continuamente descendentes”, antecipou.

Assim, explicou o gestor da XTB, as quedas irão beneficiar as famílias e empresas que pedem dinheiro emprestado, já que “a redução do encargo mensal com amortização de capital e juros acaba por gerar mais rendimento disponível”. Já da perspectiva do aforrador, “a remuneração dos depósitos a prazo torna este tipo de produto menos atractivo”, pelo que quem quiser ganhar mais tem de arriscar e apostar em produtos como acções.

Para Filipe Garcia, da IMF – Informação de Mercados Financeiros, o movimento a que estamos a assistir de descida das taxas Euribor é importante “sobretudo simbolicamente”, uma vez que são movimentos pequenos, mesmo de milésimas, enquanto noutras alturas foram bem mais substanciais.

O economista prevê que, em todas as maturidades, as Euribor se aproximem do valor da taxa de depósitos do BCE, que está em 0,2% negativos e quando há expectativa que ainda desça mais, para -0,3%.

Sobre os efeitos mais genéricos, Filipe Garcia considerou que estes movimentos nas Euribor refletem que a economia não está a conseguir gerar inflação, havendo alguma quebra da relação que a história económica foi estabelecendo entre crescimento e inflação. E isto apesar dos estímulos monetários que os bancos centrais têm levado a cabo.

“Estamos numa situação estrutural de inflação baixa. Não tem a ver só a ver com a zona euro, acontece também nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Japão e até Polónia”, disse Filipe Garcia, relacionando, entre outros factores, com salários que estão relativamente congelados nos países desenvolvidos e nos preços das matérias-primas mais baixos, sobretudo os preços da energia.

As Euribor são fixadas pela média das taxas às quais um conjunto de bancos da zona euro está disposto a emprestar dinheiro entre si no mercado interbancário. Os bancos dão a indicação do valor a que emprestariam o dinheiro em determinados prazos e é esse valor que é divulgado diariamente. Em Portugal, apenas a Caixa Geral de Depósitos faz parte do painel.

O European Money Markets Institute, que gere o painel Euribor, tem um plano para reformar a formação das Euribor, sendo que umas das alterações passa por ancorar o valor das Euribor em “transacções reais, em vez de estimativas, a fim de melhorar a transparência e reduzir os riscos de manipulação”, segundo um documento da EMMI divulgado a semana passada, a que a Lusa teve acesso.
 
Fonte: Jornal I

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